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or séculos, a humanidade se moveu a partir das histórias. Desde as pinturas rupestres em cavernas até os clássicos da literatura, do teatro e do cinema, fomos moldados por narrativas que nos ensinaram quem somos, o que desejamos e o que tememos. A Odisseia nos mostrou que toda jornada é também uma busca interior; Shakespeare nos lembrou que paixões, ciúmes e ambições são universais; e autores como Tolstói e Dostoiévski nos mergulharam nas complexidades da alma humana. No cinema, diretores como Orson Welles, Alfred Hitchcock, François Truffaut ou Akira Kurosawa reinventaram essas tramas, criando experiências visuais que permanecem em nossa memória décadas depois.

Mas e hoje? Com o excesso de informação, streaming, redes sociais e a infinidade de conteúdos produzidos a cada segundo, é impossível não se perguntar: será que todas as grandes histórias já foram criadas? Será que, depois de tanto, ainda há espaço para a narrativa que realmente nos surpreenda, nos transforme ou nos faça refletir?

A verdade é que a questão não é se todas as histórias já foram contadas, mas como contamos as histórias que nos cercam. Porque, como Robert McKee explica em STORY, a narrativa não é apenas sobre o que acontece, mas sobre como o que acontece se conecta emocionalmente com o público. Conflito, transformação e significado — esses elementos universais fazem qualquer história transcender o tempo e o meio em que é contada.

No marketing, esse princípio é ainda mais evidente. Não basta vender um produto ou uma ideia; é preciso criar histórias que emocionem, que criem identificação e que deixem uma marca. Steve Jobs não vendia apenas computadores: contava histórias sobre criatividade, inovação e liberdade de pensar diferente. Disney não vende apenas entretenimento: entrega sonhos e experiências universais que atravessam gerações. E, hoje, marcas que entendem storytelling sabem que cada post, vídeo ou campanha é uma oportunidade de criar enredos nos quais o público se vê protagonista.

As grandes histórias, portanto, não estão perdidas. Elas estão escondidas em experiências humanas cotidianas, em escolhas pequenas e grandes, em dilemas e em momentos de vulnerabilidade. Estão em você, em mim, em cada encontro que provoca reflexão. O desafio é enxergá-las, organizá-las e contá-las de forma que ressoe. Como McKee lembra, uma boa história provoca transformação — não apenas no leitor ou espectador, mas em quem a conta.

E talvez aí esteja a verdadeira pergunta: se todas as histórias já foram contadas, será que ainda sabemos ouvir? Será que conseguimos perceber o extraordinário no ordinário, a tensão no trivial, a beleza na imperfeição? Cada narrativa clássica — de Homero a Spielberg, de Jane Austen a Tarantino — nasceu de alguém que observou o mundo e disse: “isso é importante, isso merece ser contado”. E se retomarmos esse olhar, não como criadores isolados, mas como participantes de uma tradição milenar, perceberemos que nunca houve escassez de histórias — apenas de atenção e sensibilidade para contá-las bem.

Portanto, as grandes histórias não desapareceram. Elas se transformaram, se multiplicaram, e agora estão em nossas mãos: para contar, compartilhar e emocionar. E, se você trabalha com marketing, branding ou comunicação, essa é a lição mais poderosa: não invente histórias apenas; conte as histórias certas, da forma certa, para as pessoas certas. Porque histórias bem contadas nunca envelhecem. Elas atravessam gerações, inspiram ações e criam significado — exatamente como sempre fizeram, desde a primeira narrativa humana até o último filme que te fez chorar ou sorrir.

Então, se você sente que não há mais grandes histórias, talvez seja hora de reaprender a ouvir, a observar e a narrar. Porque a narrativa não termina — ela apenas espera por quem tenha coragem de contá-la de verdade.

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